Deputados de MT aprovam projeto que permite mineração em áreas de reserva legal



A Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) aprovou nessa quarta-feira (7) a Proposta de Lei Complementar (PEC) que permite que áreas de reserva legal sejam exploradas por atividades de mineração, desde que haja compensação ambiental. O autor do projeto é o deputado Carlos Avallone (PSDB). Carlos Avallone disse que se puder transferir a reserva legal para o mesmo bioma, com ganho ambiental, o meio ambiente vai ter vantagens. "Para provar isso tem que passar pela Sema (Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso) e o órgão ambiental tem que aprovar", afirmou.

Mas a situação, de acordo com o Observatório Socioambiental de Mato Grosso (Observa-MT), formado por organizações da sociedade civil com reconhecida expertise na implementação do Código Florestal, fere a legislação ambiental federal, além de ser inconstitucional.


Em outubro, houve uma primeira tentativa de votação às vésperas da Conferência do Clima da ONU (COP-26).


De acordo com o documento, o projeto altera a finalidade da Reserva Legal, área localizada dentro de uma propriedade rural com a função de assegurar o uso econômico de modo sustentável dos recursos naturais.


O Observa-MT solicitou um parecer jurídico à advogada Mariana Jéssica Barboza Lacerda da Matta sobre os aspectos ilegais e inconstitucionais do texto do PLC.


A análise técnica apontou que há vício de iniciativa, uma vez que o artigo 22 da Constituição Federal estabelece que cabe privativamente à União legislar sobre 'jazidas, minas, outros recursos minerais e metalurgia'.

O texto ainda desconsidera a função social da propriedade e afronta os princípios do artigo 225, que trata da proibição de retrocessos em matéria ambiental.


Entre as ilegalidades identificadas pelo jurídico, estão flexibilização na proteção da Reserva Legal, o que contraria a Lei federal n° 12.651/2012, e o retrocesso quanto à possibilidade de deslocamento dessas áreas, um tema já pacificado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).


Além disso, segundo a jurista, o projeto de lei descaracteriza a Reserva Legal e fere a possibilidade de seu uso sustentável, ao estabelecer critérios mais brandos para ações potencialmente mais lesivas.


A proposta prevê, por exemplo, a possibilidade de supressão da Reserva Legal em casos de interesse social, utilidade pública, exploração mineral ou pesquisa científica - conceitos que, de acordo com o parecer, são 'demasiadamente abertos, permitindo que diversas situações se enquadrassem em tais previsões, o que contraria expressamente o que está previsto no Código Florestal'.

À época da primeira tentativa de votação, as ilegalidades do projeto também foram alvo de manifestação do Ministério Público Estadual.


Em nota, o procurador-geral de Justiça José Antonio Borges Pereira, e pelo Procurador de Justiça de Defesa Ambiental e da Ordem Urbanística, Luiz Alberto Esteves Scaloppe, o MP afirmou que a proposta 'fomenta a prática de ilícitos ambientais e resulta em novos estímulos aos desmatamentos no estado de Mato Grosso'.


“O projeto pretende alterar o regime do instituto da Reserva Legal, descaracterizando-a e entregando ao comércio seu solo e, consequentemente, destruindo a flora e fauna ali presente, razão principal da sua existência”, disse o MP, na nota.

O projeto já foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e só não foi votado ontem em razão de um pedido de vistas formulado pelo deputado estadual Lúdio Cabral (PT).


Como foi colocado em regime de urgência, no entanto, o prazo para análise é reduzido de cinco dias para 24 horas.


Além de um substitutivo, a pedido da sociedade o parlamentar defende a realização de uma audiência pública para ampliar o debate a respeito da proposta.



G1 MT

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